No evangelho de Lucas, encontramos uma narrativa em que os pais de Jesus, José e Maria, ao voltarem para casa depois da festa do tabernáculo, se dão conta que Jesus não estava com eles. Ele sumira. Seus pais aflitos voltam para procurá-lo sem saber onde encontrá-lo. Por três dias procuram, em vão, por toda a cidade até que, finalmente, o encontraram no templo. A Bíblia diz que ao verem onde Ele se encontrava e o que estava fazendo, ficaram admirados, perplexos. "Como é que você faz uma coisa dessas conosco? Faz três dias que estamos aflitos a sua procura!" Jesus, surpreso, responde: "Como assim? Vocês não sabiam que eu estaria aqui? Vocês não me conhecem o suficiente para saber que era aqui que eu estaria?". Aqueles pais são forçados a reconhecer: Não. Não sabiam que ali que encontrariam seu filho. Se dão conta que não conheciam seu filho suficientemente para saber que era ali que o encontrariam. Eles, surpreendentemente, descobrem uma das verdades mais difíceis da paternidade: nós não conhecemos de fato essas crianças que trazemos à vida, a quem chamamos de filhos. Em essência, não sabemos quem realmente são. O interessante é que os pais de Jesus sabiam, tecnicamente, que seu filho, não era deles. Sabiam, desde a concepção, que ele pertencia a algo, a alguém que não eles. Nós, como cristãos, também, sabemos tecnicamente que nossos filhos não são nossos. Sabemos que eles na verdade são filhos de Deus. Sabemos, mas não entendemos. Saber é reter informação. Entender é dar sentido a essa informação. Entender, que, assim como Jesus, nossos filhos são filhos de Deus seria necessariamente reconhecer que as vidas deles não estão sujeitas as nossas, mas a um propósito. A família, assim passa a ter sentido e sua existência passa a ter uma razão de ser: a de gerar e educar o povo de Deus para a vida eterna. No texto em Lucas, chama atenção o fato dos pais de Jesus terem procurado por três dias em todos os lugares possíveis. O último lugar a procurarem foi no Templo. Onde esperamos encontrar nossos filhos? Onde acreditamos que haja o melhor que o mundo pode oferecer: nas melhores escolas, nos melhores empregos, nos melhores bairros, nos melhores clubes. É onde achamos que vamos achar o essencial para a felicidade dos nossos filhos. E quando tudo isso falha e nossos filhos se tornam infelizes, procuramos nos melhores médicos, melhores psicólogos, nas mais absurdas terapias. O ultimo lugar em que procuramos é na casa do Pai. Sabemos que não nos pertencem, mas não entendemos. No fundo ainda acreditamos que nossos filhos pertencem a nós e ao mundo. No fundo acreditamos que é no mundo, e o que ele pode oferecer, que vamos encontrar aquilo que pode garantir a felicidade deles. Os nossos sonhos de pais mundanos são mais importantes que os sonhos de Deus. Na verdade o que acaba por impedir que nossos filhos conheçam a Deus e quem são somos nos mesmos. Ignoramos as palavras de Jesus: "Deixai vir a mim os pequeninos e não os impeçais". Ao entendermos que nossos filhos não são nossos, mas de Deus, não temos outra saída a não ser cumprir o que Ele espera de nos: deixar que nossos filhos conheçam a Jesus. Infelizmente temos sido, nós e nossos planos, o grande obstáculo que impede o acesso de nossas crianças a Jesus. Uma das formas mais evidentes disso é o não levar nossos filhos à Igreja. A Igreja é a manifestação física de Cristo na terra. É lá que o povo de Deus se reúne. É estando com o povo de Deus que nossos filhos tem a chance de, aos poucos, entender quem realmente são. Aprenderão a conhecer a Deus e a se relacionar com Ele pessoalmente. Entenderão o sonho dÊle para suas vidas. Infelizmente, essa visão só faz sentido para nós, também, filhos de Deus, que reconhecem o alto valor de filhos como preciosos presentes de Deus, não para nós, mas para a Igreja de Jesus Cristo. Ynalva Ribeiro dos Santos Pedagoga pela Unicamp Especialização na Klingenstein Center T.C. - Columbia University - USA. |