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Treinamento - Igreja Presbiteriana de Novo Campos Elísios

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Aula 5 Perícopes

 

EXEGESE

ANÁLISE TEXTUAL – DELIMITAÇÃO DE PERÍCOPES (I)

 

Para prosseguirmos em nossos estudos é necessário estabelecermos o texto que será estudo, ou em outras palavras, delimitá-lo. Delimitar o texto significa “estabelecer limites para cima e para baixo, ou seja, onde ele começa e onde ele termina. O trecho resultante dessa delimitação recebe o nome de perícope”.[1] Em geral, nossas edições são divididas em capítulos e versículos, mas já sabemos que essas divisões não constam no original, mas são definidas pelos editores. Embora essas divisões geralmente contribuam para a delimitação da perícope, esse critério não deve ser tido como suficiente para tal delimitação, pois pode possuir erros. Esses erros podem gerar dois resultados. O primeiro é a “quebra” de uma unidade literária,[2] isto é, pode ocorrer uma má delimitação. Um exemplo clássico encontramos em 1Coríntios 11.1. Certamente esse verso pertence a perícope anterior que abrange 10.23 – 11.1, que por sua vez faz parte do bloco maior que vai de 8.1 a 11.1 (tb. Mt 7.1-12 e Mc 5.21-43); o segundo erro é o contrário do primeiro. Perícopes que deveriam ser delimitadas são agrupadas sob o mesmo título. Isso acontece em Eclesiastes 4.1 – 5.8. São vários os temas, mas todos delimitados dentro da mesma perícope.[3]

Diante de tal constatação, como podemos seguramente delimitar uma perícope? É possível? Sim, é possível, pois precisamos lembrar que a Escritura Sagrada é composta de vários textos e seus escritores, ao escreverem, tinham objetivos em vista. Assim, por tratar-se de literatura, temos critérios que indicam o início de uma perícope e critérios que indicam seu fim.

  1. 1.Critérios que indicam início perícope[4]

Ao iniciar um novo relato ou um novo argumento, o autor lança mão de alguns detalhes, pois precisa chamar a atenção do leitor para isso. Ele faz isso da seguinte forma:

  1. a.Tempo e espaço

Como todo episódio narrado se desenvolve dentro dessas coordenadas, tempo e espaço são indícios importantes. O tempo pode indicar o início, a continuação, a conclusão ou a repetição de um evento. O espaço localiza fisicamente a ação e concede a noção de movimento. Exemplos disso são os textos de 2Sm 11.1 (“Decorrido um ano, no tempo em que os reis costumam sair para a guerra, enviou Davi a Joabe, e seus servos, com ele, e a todo o Israel, que destruíram os filhos de Amom e sitiaram Rabá; porém Davi ficou em Jerusalém.”) e Mateus 4.1 (“Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo.”).

  1. b.Actantes ou personagens

Em textos narrativos, a nova ação pode se iniciar com a chegada, a percepção ou a mera aparição de um novo personagem, ou com a atividade de alguém que até agora estava inativo na narração. Alguns exemplos são: “Veio um homem de Baal-Salisa, trazendo ao homem de Deus vinte pães de cevada, feitos dos primeiros grãos da colheita, e também algumas espigas verdes. Então Eliseu ordenou ao seu servo: ‘Sirva a todos’” (2Rs 4.42); Todos os publicanos e pecadores estavam se reunindo para ouvi-lo. Mas os fariseus e os mestres da lei o criticavam: ‘Este homem recebe pecadores e come com eles’.” (Lc 15.1-2).

  1. c.Argumento

Podemos identificar uma nova perícope pela mudança de assunto, geralmente introduzida por fórmulas de passagem como “finalmente...”, “quanto a...”, “a propósito...”, “por essa razão...”, “portanto...”, etc. Encontramos esse uso em Oséias 2.14[5] (“Portanto, agora vou atraí-la; vou levá-la para o deserto e falar-lhe com carinho.”) e 1Cor 12.1 (“Irmãos, quanto aos dons espirituais, não quero que vocês sejam ignorantes.”). Um destaque importante a fazer é que em alguns casos não acontece a mudança de argumento, mas apenas a mudança de perspectiva. Isso é muito comum nas cartas de Paulo e acontece através do uso da diatribe, que é a introdução de um interlocutor fictício, com o qual mantém-se uma discussão e responde as questões que tal personagem propõem. Um exemplo de diatribe é Romanos 7.1: “Que diremos então? A Lei é pecado? De maneira nenhuma! De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da Lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a Lei não dissesse: ‘Não cobiçarás’.”

  1. d.Anúncio do tema

Alguns textos introduzem ou antecipam os assuntos que serão tratados a seguir. Um bom exemplo encontramos em Hebreus 3.1 (“Portanto, santos irmãos, participantes do chamado celestial, fixem os seus pensamentos em Jesus, apóstolo e sumo sacerdote que confessamos.”), que é anunciado em 2.17-18 e que é o tema de 3.1 – 5.10.

  1. e.Título

Alguns autores apresentam explicitamente o título que demarca parte importante do texto. Encontramos esses “títulos”, por exemplo, em Isaías 21: “Advertência contra o deserto junto ao mar” (21.1), “Advertência contra Dumá” (21.11) e “Advertência contra a Arábia” (21.13). No Novo Testamente encontramos esse “título” em Apocalipse 2: “Ao anjo da igreja em Éfeso escreva” (2.1), “Ao anjo da igreja em Esmirna escreva” (2.8), “Ao anjo da igreja em Pérgamo escreva” (2.12), “Ao anjo da igreja em Tiatira escreva” (2.18).

  1. f.Vocativo e/ou novos destinatários

Um novo oráculo profético ou uma nova mensagem podem ser apresentados por um vocativo que explicita a quem tais palavras são dirigidas. Esses destinatários podem ser os mesmos de até então (“Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado?” Gl 3.1) ou novos destinatários (“Ouvi isto, ó sacerdotes; escutai, ó casa de Israel; e dai ouvidos, ó casa do rei, porque este juízo é contra vós outros, visto que fostes um laço em Mispa e rede estendida sobre o Tabor”. Os 5.1). Esses mesmos indícios podem indicar uma nova fase na argumentação, como podemos perceber em Efésios 6.1-9:

Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. ‘Honra teu pai e tua mãe’ – este é o primeiro mandamento com promessa – ‘para que tudo te corra bem e tenhas longa vida sobre a terra’. Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o conselho do Senhor. Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor, com sinceridade de coração, como a Cristo. Obedeçam-lhes, não apenas para agradá-los quando eles os observam, mas como escravos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus. Sirvam aos seus senhores de boa vontade, como servindo ao Senhor, e não aos homens, porque vocês sabem que o Senhor recompensará cada um pelo bem que praticar, seja escravo, seja livre. Vocês, senhores, tratem seus escravos da mesma forma. Não os ameacem, uma vez que vocês sabem que o Senhor deles e de vocês está nos céus, e ele não faz diferença entre as pessoas.

  1. g.Introdução ao discurso

É a introdução da fala de um dos personagens. Essas introduções encontramos em Jó 6.1 (“Então Jó respondeu”) e Mateus 23.1 (“Então, Jesus disse à multidão e aos seus discípulos”). Porém, nem sempre a introdução da fala de um personagem marca o início de uma nova perícope, pois pode apenas separar o ocorrido ou contado pelo personagem e o comentário que este mesmo personagem faz (cf. Lc 18.6).  

  1. h.Mudança de estilo

O texto pode sofrer uma mudança de estilo literário quando o autor mescla dois tipos diferentes de exposição. Isso acontece quando se passa da narrativa para o discurso (“Simão, o zelote, e Judas Iscariotes, que o traiu. Jesus enviou os doze com as seguintes instruções: “Não se dirijam aos gentios, nem entrem em cidade alguma dos samaritanos.Mt 10.4-5). A mudança também ocorre da poesia para a narrativa:

 

Eu a plantarei para mim mesmo na terra;

tratarei com amor aquela que chamei Não-amada.

Direi àquele chamado Não-meu-povo: Você é meu povo;

e ele dirá: ‘Tu és o meu Deus’.” (Os 2.23)

O SENHOR me disse: “Vá, trate novamente com amor sua mulher, apesar de ela ser amada por outro e ser adúltera. Ame-a como o SENHOR ama os israelitas, apesar de eles se voltarem para outros deuses e de amarem os bolos sagrados de uvas passas”. (Os 3.1)

 

Outra mudança ocorre da narrativa para a poesia (Os 3.5 – 4.1):

Depois disso os israelitas voltarão e buscarão o SENHOR, o seu Deus, e Davi, seu rei. Virão tremendo atrás do SENHOR e das suas bênçãos, nos últimos dias.” (Os 3.5)

Israelitas, ouçam a palavra do SENHOR,

porque o SENHOR tem uma acusação contra vocês que vivem nesta terra:

“A fidelidade e o amor desapareceram desta terra,

como também o conhecimento de Deus. (Os 4.1)

 

            EXERCÍCIO I: Analise, aponte e defenda os critérios de início de perícope do texto de Marcos 5.21-43.

 

 



[1] SILVA, Cássio Murilo Dias da. Metodologia de exegese bíblica. São Paulo: Paulinas, 2000, p. 68.

[2] Unidade literária e perícope são sinônimos.

[3] Conforme a ARA. A NVI divide em 5.1. Já a Bíblia de Jerusalém considera até 4.17.  

[4] Todos os critérios aqui apresentados estão em: SILVA, 2000, pp. 70-72.

5 Em 2.2-13 o anúncio é de castigo, a partir de 2.14 o anúncio passa a ser de restauração.